sexta-feira, novembro 28, 2003
Lula comete gafe em encontro com atletas paraolímpicos
Nota: Publicado pela Folha Online em 27/11/2003, às 19h16.
RICARDO MIGNONE
da Folha Online, em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometeu mais uma gafe nesta quinta-feira, ao discursar para 54 atletas paraolímpicos que vão disputar os Jogos Para-panamericanos de Mar Del Plata, na Argentina.
A gafe ocorreu no início do discurso, de improviso, quando Lula comentou que estava com o pé doendo, mas que não podia mancar. "Eu estou com uma dor no pé e não posso nem mancar para a imprensa não dizer que eu estou mancando porque eu estou em um encontro com os companheiros portadores de deficiência", disse o presidente.
Lula torceu o pé esquerdo na última terça-feira (18), no Palácio da Alvorada. Ele foi medicado e imobilizou a perna. Devido ao acidente, chegou a cancelar alguns compromissos da agenda presidencial.
Repertório
Outras gafes semelhantes marcaram os discursos de Lula ao longo de seu primeiro ano de mandato. Na lista das gafes, citou mais de uma vez a palavra "loucos" durante discurso sobre o tratamento de doentes mentais, no Palácio do Planalto.
No mês passado, em viagem à África, afirmou em discurso que "não parecia que estava em um país africano", devido à limpeza.
Na Inglaterra, durante cerimônia de encerramento da reunião de cúpula da Governança Progressista --nova versão da Terceira Via-, Lula "demitiu" o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, ao dizer que ele não seria o anfitrião do próximo encontro. No entanto Blair pode ser reconduzido ao cargo.
"Daqui a dois ou três, possivelmente não sejamos muitos dos que estão aqui. Talvez sejam outros. E nem será o Tony Blair que estará convidando, será outra pessoa", disse.
RICARDO MIGNONE
da Folha Online, em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometeu mais uma gafe nesta quinta-feira, ao discursar para 54 atletas paraolímpicos que vão disputar os Jogos Para-panamericanos de Mar Del Plata, na Argentina.
A gafe ocorreu no início do discurso, de improviso, quando Lula comentou que estava com o pé doendo, mas que não podia mancar. "Eu estou com uma dor no pé e não posso nem mancar para a imprensa não dizer que eu estou mancando porque eu estou em um encontro com os companheiros portadores de deficiência", disse o presidente.
Lula torceu o pé esquerdo na última terça-feira (18), no Palácio da Alvorada. Ele foi medicado e imobilizou a perna. Devido ao acidente, chegou a cancelar alguns compromissos da agenda presidencial.
Repertório
Outras gafes semelhantes marcaram os discursos de Lula ao longo de seu primeiro ano de mandato. Na lista das gafes, citou mais de uma vez a palavra "loucos" durante discurso sobre o tratamento de doentes mentais, no Palácio do Planalto.
No mês passado, em viagem à África, afirmou em discurso que "não parecia que estava em um país africano", devido à limpeza.
Na Inglaterra, durante cerimônia de encerramento da reunião de cúpula da Governança Progressista --nova versão da Terceira Via-, Lula "demitiu" o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, ao dizer que ele não seria o anfitrião do próximo encontro. No entanto Blair pode ser reconduzido ao cargo.
"Daqui a dois ou três, possivelmente não sejamos muitos dos que estão aqui. Talvez sejam outros. E nem será o Tony Blair que estará convidando, será outra pessoa", disse.
quarta-feira, novembro 26, 2003
Às vezes, uma foto vale mais que mil palavras

Silêncio na política, por José Sarney
Nota: um artigo de, ora vejam só, José Sarney, que trata sobre a importância do silêncio, chegando à conclusão que, na política, o ideal é 'muito ouvir e pouco falar'. Publicado em http://an.uol.com.br/2001/abr/20/0opi.htm
Diz-se que, em política, a palavra é mais da metade da ação. E a palavra, embora escrita, nunca é ausente de som. Falar, transmitir idéias, defender atitudes, predicar, convencer fazem parte do cotidiano de um bom político. Assim, o silêncio seria a antítese da atividade política. Mas nem sempre é desse modo. Há momentos em que é de grande sabedoria o brocardo popular: "O silêncio é de ouro". Os livros sagrados estão cheios de recomendações sobre o "guardar a língua", afastando o perigo de pecar por "pensamentos" e "palavras".
O político que, nos tempos modernos, melhor utilizou o silêncio foi Mitterrand. O velho combatente socialista, obstinado e firme, falava pouco. Nunca nenhum presidente francês foi tão avaro de declarações como ele. Achava que só podia usar a palavra quando gerava consequência. Administrou o silêncio com tamanha maestria que os seus momentos mais criativos e eloquentes foram aqueles em que ficou calado.
Jânio Quadros falava o necessário, e geralmente para esconder o que pensava. Certa noite, estávamos em São Paulo, no Hotel Cambridge, e ele fazia uma avaliação da campanha presidencial de 1960. Concluiu que alguns líderes estavam falando demais e citou Carlos Lacerda. Emílio Carlos, fora da conversa, informou que Lacerda estava com problema na coluna, exatamente "bico-de-papagaio". Jânio repicou: "Ele está é com papagaio no bico".
Costa e Silva, ao encontrar-se com o presidente Nixon, depois dos cumprimentos formais, ficou calado, em grande silêncio. Um assessor perguntou-lhe preocupado: "O senhor está sentindo alguma coisa, presidente?" "Nada", respondeu, bonachão. "É que meu inglês já acabou."
Romain Rolland, no seu romance "Jean-Cristophe", constrói um personagem que possuía tanta compulsão à tagarelice que só gostava de ir a concertos de Wagner. E justificava: "A música dele é tão vibrante e alta que a gente pode conversar no teatro e ninguém nota".
Na literatura, a tagarelice é o barroco, a extensão das formas, o exercício dos detalhes a escrever sempre com um simpósio de adjetivos.
Agora, surgiu um novo estilo do anti-silêncio na política, a negação do Mitterrand: é Bush, o texano novo. Tem falado e tem dito tanta bobagem que seus marqueteiros criaram uma campanha de imagem na qual ele deve afirmar-se por gafes e, valha-nos Deus, com erros de inglês e de geografia. É uma técnica de imunização à tolice, a busca de uma fórmula eficaz da "auto-anulação". Vejamos esta preciosidade de Bush, no Gridirond Club, em contato com a imprensa: "Se você for rigoroso, vai pensar que o verbo 'está' deveria estar no plural, 'estão'. Estou usando o subjuntivo do intransitivo plural. Portanto a palavra 'está' estão correta!". Shakespeare deve tremer na cova!
É uma grande virtude saber escutar o silêncio. Há quarenta anos no Congresso, cheguei à conclusão de que ali deve ser, hoje, lugar de muito ouvir e de pouco falar.
José Sarney , senador (PMDB/AP), ex-presidente da República
Diz-se que, em política, a palavra é mais da metade da ação. E a palavra, embora escrita, nunca é ausente de som. Falar, transmitir idéias, defender atitudes, predicar, convencer fazem parte do cotidiano de um bom político. Assim, o silêncio seria a antítese da atividade política. Mas nem sempre é desse modo. Há momentos em que é de grande sabedoria o brocardo popular: "O silêncio é de ouro". Os livros sagrados estão cheios de recomendações sobre o "guardar a língua", afastando o perigo de pecar por "pensamentos" e "palavras".
O político que, nos tempos modernos, melhor utilizou o silêncio foi Mitterrand. O velho combatente socialista, obstinado e firme, falava pouco. Nunca nenhum presidente francês foi tão avaro de declarações como ele. Achava que só podia usar a palavra quando gerava consequência. Administrou o silêncio com tamanha maestria que os seus momentos mais criativos e eloquentes foram aqueles em que ficou calado.
Jânio Quadros falava o necessário, e geralmente para esconder o que pensava. Certa noite, estávamos em São Paulo, no Hotel Cambridge, e ele fazia uma avaliação da campanha presidencial de 1960. Concluiu que alguns líderes estavam falando demais e citou Carlos Lacerda. Emílio Carlos, fora da conversa, informou que Lacerda estava com problema na coluna, exatamente "bico-de-papagaio". Jânio repicou: "Ele está é com papagaio no bico".
Costa e Silva, ao encontrar-se com o presidente Nixon, depois dos cumprimentos formais, ficou calado, em grande silêncio. Um assessor perguntou-lhe preocupado: "O senhor está sentindo alguma coisa, presidente?" "Nada", respondeu, bonachão. "É que meu inglês já acabou."
Romain Rolland, no seu romance "Jean-Cristophe", constrói um personagem que possuía tanta compulsão à tagarelice que só gostava de ir a concertos de Wagner. E justificava: "A música dele é tão vibrante e alta que a gente pode conversar no teatro e ninguém nota".
Na literatura, a tagarelice é o barroco, a extensão das formas, o exercício dos detalhes a escrever sempre com um simpósio de adjetivos.
Agora, surgiu um novo estilo do anti-silêncio na política, a negação do Mitterrand: é Bush, o texano novo. Tem falado e tem dito tanta bobagem que seus marqueteiros criaram uma campanha de imagem na qual ele deve afirmar-se por gafes e, valha-nos Deus, com erros de inglês e de geografia. É uma técnica de imunização à tolice, a busca de uma fórmula eficaz da "auto-anulação". Vejamos esta preciosidade de Bush, no Gridirond Club, em contato com a imprensa: "Se você for rigoroso, vai pensar que o verbo 'está' deveria estar no plural, 'estão'. Estou usando o subjuntivo do intransitivo plural. Portanto a palavra 'está' estão correta!". Shakespeare deve tremer na cova!
É uma grande virtude saber escutar o silêncio. Há quarenta anos no Congresso, cheguei à conclusão de que ali deve ser, hoje, lugar de muito ouvir e de pouco falar.
José Sarney , senador (PMDB/AP), ex-presidente da República
segunda-feira, novembro 24, 2003
O BUSHISMO ESTÁ VIVO
Nota: apenas para lembrar que, em matéria de gafe, o Lula não está sozinho... Publicado no site da IstoÉ Dinheiro, em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/235/economia/235_bushismo_esta_vivo.htm
Bush repete o pai e brilha no Japão como humorista involuntário
Ivan Martins
Se é verdade que a política converteu-se em mero espetáculo, então George W. Bush, o presidente dos Estados Unidos, pode ser considerado o novo rei do riso – um comediante irrefreável, capaz de gerar espontaneamente aquela faísca de surpresa e constrangimento que faz a delícia da platéia. Na semana passada, em visita oficial ao Japão, o homem mais poderoso da Terra honrou a tradição familiar e não parou de tropeçar na própria língua. Seu pai, George Bush, desmaiou em 1992 durante um jantar com o primeiro-ministro japonês. Foi o momento mais baixo de uma viagem eleitoreira que pretendia mostrar o indeciso presidente como durão, capaz de arrancar concessões comerciais dos “amarelos”. O plano terminou com George Pai vomitando inconsciente com a cabeça amparada nas pernas de Kiichi Miyazawa. Perdeu a eleição para Bill Clinton. George Filho, que às vezes desmaia comendo pretzel, dessa vez poupou o cerimonial japonês, mas também fez das suas. No lance mais desastrado, confundiu deflação com desvalorização durante uma entrevista sobre economia e fez disparar o mercado internacional de moedas, que entendeu que o yene seria desvalorizado. Ao tentar ser simpático, comparou o primeiro-ministro Junichiro Koizumi a um astro do beisebol americano de origem japonesa: “Ele também rebate qualquer coisa que você atire nele”. Ha, ha.
A sucessão de gafes do jovem Bush, somadas à memorável dislexia do pai – que uma vez chegou a dizer que o povo americano sabia separar “o justo do injusto, o feio do infeio” –, resultou na criação de um termo novo, o bushismo. Ele designa, segundo o jornalista americano Mark Miller, autor do livro O (Dis) Léxico de Bush, “qualquer estupidez dita pelo pai ou pelo filho”. Que não são poucas. Na lista de Bush Filho estão pérolas como “os republicanos entendem a importância do cativeiro entre mãe e filho” e “cada vez mais nossas importações vêm do exterior”. Parece pouco? Que tal então “eles me malestimaram” (querendo dizer subestimaram) ou então “a família é onde as asas criam sonhos”. Seu pai, que confundia a geografia dos Estados americanos e era capaz de sentar à mesa antes da rainha da Inglaterra, tinha a ampará-lo alguma experiência internacional de primeira mão. O filho, nem isso. “Tenho boas relações com os grecianos”, disparou há dois anos.
Em um país acostumado ao charme dos Kennedy, ao industrialismo dos Ford e à vocação para a fortuna dos Rockefeller, deve ser estranho ter no poder um outro tipo de inclinação hereditária, a da batatada. É espantoso que um sujeito atrapalhado como Bush tenha vencido a corrida para a Casa Branca. Tudo sugere que o processo seletivo das eleições pregou uma peça nos americanos. Entregou a eles um humorista involuntário, que é o sonho dos cartunistas, em meio à maior crise econômica e diplomática das últimas décadas. Dias atrás circulou na internet um hilariante mapa mental de Bush Filho. Nele, o Oriente Médio é identificado apenas como “aqui tem Osama” e a Rússia pela inscrição “dizemos que somos amigos deles”. A piada é fabulosa, mas parece estar perto demais da verdade para que o mundo durma tranqüilo.
Bush repete o pai e brilha no Japão como humorista involuntário
Ivan Martins
Se é verdade que a política converteu-se em mero espetáculo, então George W. Bush, o presidente dos Estados Unidos, pode ser considerado o novo rei do riso – um comediante irrefreável, capaz de gerar espontaneamente aquela faísca de surpresa e constrangimento que faz a delícia da platéia. Na semana passada, em visita oficial ao Japão, o homem mais poderoso da Terra honrou a tradição familiar e não parou de tropeçar na própria língua. Seu pai, George Bush, desmaiou em 1992 durante um jantar com o primeiro-ministro japonês. Foi o momento mais baixo de uma viagem eleitoreira que pretendia mostrar o indeciso presidente como durão, capaz de arrancar concessões comerciais dos “amarelos”. O plano terminou com George Pai vomitando inconsciente com a cabeça amparada nas pernas de Kiichi Miyazawa. Perdeu a eleição para Bill Clinton. George Filho, que às vezes desmaia comendo pretzel, dessa vez poupou o cerimonial japonês, mas também fez das suas. No lance mais desastrado, confundiu deflação com desvalorização durante uma entrevista sobre economia e fez disparar o mercado internacional de moedas, que entendeu que o yene seria desvalorizado. Ao tentar ser simpático, comparou o primeiro-ministro Junichiro Koizumi a um astro do beisebol americano de origem japonesa: “Ele também rebate qualquer coisa que você atire nele”. Ha, ha.
A sucessão de gafes do jovem Bush, somadas à memorável dislexia do pai – que uma vez chegou a dizer que o povo americano sabia separar “o justo do injusto, o feio do infeio” –, resultou na criação de um termo novo, o bushismo. Ele designa, segundo o jornalista americano Mark Miller, autor do livro O (Dis) Léxico de Bush, “qualquer estupidez dita pelo pai ou pelo filho”. Que não são poucas. Na lista de Bush Filho estão pérolas como “os republicanos entendem a importância do cativeiro entre mãe e filho” e “cada vez mais nossas importações vêm do exterior”. Parece pouco? Que tal então “eles me malestimaram” (querendo dizer subestimaram) ou então “a família é onde as asas criam sonhos”. Seu pai, que confundia a geografia dos Estados americanos e era capaz de sentar à mesa antes da rainha da Inglaterra, tinha a ampará-lo alguma experiência internacional de primeira mão. O filho, nem isso. “Tenho boas relações com os grecianos”, disparou há dois anos.
Em um país acostumado ao charme dos Kennedy, ao industrialismo dos Ford e à vocação para a fortuna dos Rockefeller, deve ser estranho ter no poder um outro tipo de inclinação hereditária, a da batatada. É espantoso que um sujeito atrapalhado como Bush tenha vencido a corrida para a Casa Branca. Tudo sugere que o processo seletivo das eleições pregou uma peça nos americanos. Entregou a eles um humorista involuntário, que é o sonho dos cartunistas, em meio à maior crise econômica e diplomática das últimas décadas. Dias atrás circulou na internet um hilariante mapa mental de Bush Filho. Nele, o Oriente Médio é identificado apenas como “aqui tem Osama” e a Rússia pela inscrição “dizemos que somos amigos deles”. A piada é fabulosa, mas parece estar perto demais da verdade para que o mundo durma tranqüilo.
Escândalos políticos: parte do jogo?
Nota: um artigo bastante interessante sobre o tema deste blog, publicado no Observatório da Imprensa.
Vera Chaia (*)
o cenário político contemporâneo, onde predomina uma sociedade midiática que faz do espetáculo sua maneira de ser, a política adquire um outro sentido, devendo se adaptar a esta nova forma social. A mídia, neste contexto, deve ser compreendida enquanto fonte geradora de sistemas de representação da realidade, utilizados seja para compreender a sociedade ou para acionar diferentes formas de ações.
Na nossa sociedade, onde a centralidade dos meios de comunicação é um fato, ocorre a adequação da política a estes meios. As lideranças políticas necessitam da mídia e conseguem se firmar nesta situação à medida que sua imagem é veiculada pela mídia. A publicização torna-se fundamental para deflagrar ou firmar qualquer carreira política. No entanto, este processo de publicização pode acarretar problemas para estas lideranças, pois a arena da política está mais exposta a riscos e os políticos não conseguem controlar a visibilidade e o poder da mídia.
Os caminhos políticos se abrem sob estas novas condições midiáticas, mas a vulnerabilidade das lideranças políticas também aumenta à medida que fatos políticos favoráveis ou não são publicizados. Várias colunas em jornais, programas de rádio e televisão são produzidos para divulgar não só as realizações destes políticos, mas suas gafes. Um exemplo deste tipo de programa foi a Crônica Indiscreta de Alexandre Garcia, veiculada pelo Fantástico da TV Globo, onde eram registrados todos os deslizes dos políticos, com acentuadas doses de ironia e de crítica.
A diferença entre personagem de vida pública e "ordinary people" é que no segundo caso os deslizes são perfeitamente perdoáveis e assimilados, mas para uma liderança política cometer uma gafe pode ser um erro político, às vezes irrecuperável na sua carreira política. Quem não se lembra da frase de Paulo Maluf: "estupra mas não mata"; idéia esta constantemente relembrada por seus inimigos políticos?
Atualmente estamos acompanhando a divulgação de uma série de escândalos políticos. Na sociedade contemporânea, com o poder da mídia, a vida privada destas lideranças ficou escancarada. Isto significa afirmar que não existem mais segredos particulares e nem "segredos de estado". Veja-se o caso dos "grampos" telefônicos feitos contra o próprio presidente da República e membros de seu governo (Caso BNDES).
Por que aparecem os escândalos políticos e quais as conseqüências para a vida política e social? O sociólogo John B. Thompson, professor da Universidade de Cambrigde, Inglaterra, construiu uma Teoria Social do Escândalo para apreender este fenômeno sóciopolítico. No caso específico desse país, esta problemática sempre esteve presente: lembremos do famoso Caso Profumo, um grande escândalo que agitou a vida política inglesa, e que envolveu um ministro que, indiscretamente, passou alguns segredos de Estado para uma prostituta. Atualmente outros escândalos estão aparecendo com a divulgação por um jornal sensacionalista inglês (The Sun) de nomes de ministros supostamente homossexuais.
O escândalo é aquele fenômeno que se traduz em ações que podem afetar a reputação de pessoas, ações ou eventos, supondo a existência de transgressões a valores, códigos morais que são levadas ao domínio público e que provocam reações. Os escândalos devem ser qualificados dependendo da sociedade em questão, pois valores e normas variam dependendo do contexto sóciopolítico. Neste sentido podemos classificar escândalos que envolvem: sexo/comportamento, financeiro/corrupção, e exercício do poder político/falta de decoro parlamentar.
Claro que ocorrem transgressões sem que estas se transformem em escândalos políticos. A simples suspeita de um escândalo pode desencadear um escândalo. E é neste sentido que a mídia exerce um papel importante, o de tornar público o escândalo, onde se expressa a desaprovação por aquela transgressão, oferecendo um campo profícuo para a articulação de um discurso moralizador e reprovador. O caso do escândalo sexual que envolveu o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewisnki se enquadra neste discurso moralizador e se transformou num grande escândalo político pela ação de um promotor republicano.
O que está em jogo não é somente a verdade, mas a reputação de indivíduos, que pode ser afetada irremediavelmente. Citemos a ação de forças opositoras (suspeitos o ex-governador Paulo Maluf e o ex-presidente Fernando Collor de Mello) ao atual governo que tentaram divulgar, nas últimas eleições, uma série de documentos que pressumivelmente comprovava a existência de uma conta bancária nas Ilhas Cayman (Dossiê Caribe) e que denunciava Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mário Covas e Sérgio Mota, como possuidores desta conta em nome de uma empresa CH&J-T. Na divulgação destes documentos, a mídia foi muito cautelosa, pois envolvia altas lideranças políticas.
As reações ao escândalo são várias, desde a simples negação, até a alegação de calúnia, difamação. Raros são os casos de escândalos onde o acusado, não tendo outra saída, adota a confissão pública com o objetivo de contar com a compreensão das pessoas. Também aqui podemos citar o presidente Clinton, que teve sua vida sexual devassada e transmitida pelos canais de televisão através da divulgação de seu depoimento prestado nos tribunais americanos.
Porém nem todos os escândalos são assuntos midiáticos, explorados pela mídia. A quem interessam certos escândalos? A visibilidade midiática é utilizada para que certos grupos/pessoas alcancem certos objetivos: desmoralizar uma liderança, condenar um político, ‘matar’ um adversário, e por vingança. Na realidade estas lideranças ficam ‘presas’ nas descobertas da mídia, o que pode provocar um desfecho não premeditado pelos agentes desencadeadores e deflagradores do escândalo. Podemos citar dois exemplos desta situação, o caso do escândalo político do Watergate, que provocou a queda do presidente Nixon, e o nosso Collorgate, que também provocou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.
O papel desempenhado pela mídia na publicização do escândalo político também é reforçado pelos ‘espectadores’ que acompanham freneticamente e ansiosamente os passos e as descobertas da mídia ou das autoridades competentes sobre determinados acontecimentos/pessoas.
Quais são as conseqüências dos escândalos políticos? Claro que pessoas são envolvidas, reputações são questionadas, carreiras políticas podem ser destruídas. Porém o que mais nos chama a atenção é que, em determinadas situações, ocorre a quebra da confiança no papel de certas instituições. A mídia em alguns escândalos exagera em suas observações e avaliações, chegando a generalizar certas atitudes, como se toda a categoria dos políticos agisse de uma maneira comum. O político, em alguns momentos, é avaliado negativamente, e torna-se sinônimo de corrupção.
Neste sentido é que devem ser compreendidas as comissões de investigação, mas principalmente as Comissões Parlamentares de Inquérito, formadas para acompanhar os escândalos e, restaurar, à medida do desgaste político, a confiança nas instituições.
A democracia só se aprimora quando a liberdade de expressão é preservada e quando tais transgressões ou são punidas judicialmente ou são compreendidas pelos cidadãos.
Infelizmente, o escândalo político é um tema que nunca sai de pauta!
(*) Professora de Política da PUC/SP e pesquisadora do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política)
Vera Chaia (*)
o cenário político contemporâneo, onde predomina uma sociedade midiática que faz do espetáculo sua maneira de ser, a política adquire um outro sentido, devendo se adaptar a esta nova forma social. A mídia, neste contexto, deve ser compreendida enquanto fonte geradora de sistemas de representação da realidade, utilizados seja para compreender a sociedade ou para acionar diferentes formas de ações.
Na nossa sociedade, onde a centralidade dos meios de comunicação é um fato, ocorre a adequação da política a estes meios. As lideranças políticas necessitam da mídia e conseguem se firmar nesta situação à medida que sua imagem é veiculada pela mídia. A publicização torna-se fundamental para deflagrar ou firmar qualquer carreira política. No entanto, este processo de publicização pode acarretar problemas para estas lideranças, pois a arena da política está mais exposta a riscos e os políticos não conseguem controlar a visibilidade e o poder da mídia.
Os caminhos políticos se abrem sob estas novas condições midiáticas, mas a vulnerabilidade das lideranças políticas também aumenta à medida que fatos políticos favoráveis ou não são publicizados. Várias colunas em jornais, programas de rádio e televisão são produzidos para divulgar não só as realizações destes políticos, mas suas gafes. Um exemplo deste tipo de programa foi a Crônica Indiscreta de Alexandre Garcia, veiculada pelo Fantástico da TV Globo, onde eram registrados todos os deslizes dos políticos, com acentuadas doses de ironia e de crítica.
A diferença entre personagem de vida pública e "ordinary people" é que no segundo caso os deslizes são perfeitamente perdoáveis e assimilados, mas para uma liderança política cometer uma gafe pode ser um erro político, às vezes irrecuperável na sua carreira política. Quem não se lembra da frase de Paulo Maluf: "estupra mas não mata"; idéia esta constantemente relembrada por seus inimigos políticos?
Atualmente estamos acompanhando a divulgação de uma série de escândalos políticos. Na sociedade contemporânea, com o poder da mídia, a vida privada destas lideranças ficou escancarada. Isto significa afirmar que não existem mais segredos particulares e nem "segredos de estado". Veja-se o caso dos "grampos" telefônicos feitos contra o próprio presidente da República e membros de seu governo (Caso BNDES).
Por que aparecem os escândalos políticos e quais as conseqüências para a vida política e social? O sociólogo John B. Thompson, professor da Universidade de Cambrigde, Inglaterra, construiu uma Teoria Social do Escândalo para apreender este fenômeno sóciopolítico. No caso específico desse país, esta problemática sempre esteve presente: lembremos do famoso Caso Profumo, um grande escândalo que agitou a vida política inglesa, e que envolveu um ministro que, indiscretamente, passou alguns segredos de Estado para uma prostituta. Atualmente outros escândalos estão aparecendo com a divulgação por um jornal sensacionalista inglês (The Sun) de nomes de ministros supostamente homossexuais.
O escândalo é aquele fenômeno que se traduz em ações que podem afetar a reputação de pessoas, ações ou eventos, supondo a existência de transgressões a valores, códigos morais que são levadas ao domínio público e que provocam reações. Os escândalos devem ser qualificados dependendo da sociedade em questão, pois valores e normas variam dependendo do contexto sóciopolítico. Neste sentido podemos classificar escândalos que envolvem: sexo/comportamento, financeiro/corrupção, e exercício do poder político/falta de decoro parlamentar.
Claro que ocorrem transgressões sem que estas se transformem em escândalos políticos. A simples suspeita de um escândalo pode desencadear um escândalo. E é neste sentido que a mídia exerce um papel importante, o de tornar público o escândalo, onde se expressa a desaprovação por aquela transgressão, oferecendo um campo profícuo para a articulação de um discurso moralizador e reprovador. O caso do escândalo sexual que envolveu o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewisnki se enquadra neste discurso moralizador e se transformou num grande escândalo político pela ação de um promotor republicano.
O que está em jogo não é somente a verdade, mas a reputação de indivíduos, que pode ser afetada irremediavelmente. Citemos a ação de forças opositoras (suspeitos o ex-governador Paulo Maluf e o ex-presidente Fernando Collor de Mello) ao atual governo que tentaram divulgar, nas últimas eleições, uma série de documentos que pressumivelmente comprovava a existência de uma conta bancária nas Ilhas Cayman (Dossiê Caribe) e que denunciava Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mário Covas e Sérgio Mota, como possuidores desta conta em nome de uma empresa CH&J-T. Na divulgação destes documentos, a mídia foi muito cautelosa, pois envolvia altas lideranças políticas.
As reações ao escândalo são várias, desde a simples negação, até a alegação de calúnia, difamação. Raros são os casos de escândalos onde o acusado, não tendo outra saída, adota a confissão pública com o objetivo de contar com a compreensão das pessoas. Também aqui podemos citar o presidente Clinton, que teve sua vida sexual devassada e transmitida pelos canais de televisão através da divulgação de seu depoimento prestado nos tribunais americanos.
Porém nem todos os escândalos são assuntos midiáticos, explorados pela mídia. A quem interessam certos escândalos? A visibilidade midiática é utilizada para que certos grupos/pessoas alcancem certos objetivos: desmoralizar uma liderança, condenar um político, ‘matar’ um adversário, e por vingança. Na realidade estas lideranças ficam ‘presas’ nas descobertas da mídia, o que pode provocar um desfecho não premeditado pelos agentes desencadeadores e deflagradores do escândalo. Podemos citar dois exemplos desta situação, o caso do escândalo político do Watergate, que provocou a queda do presidente Nixon, e o nosso Collorgate, que também provocou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.
O papel desempenhado pela mídia na publicização do escândalo político também é reforçado pelos ‘espectadores’ que acompanham freneticamente e ansiosamente os passos e as descobertas da mídia ou das autoridades competentes sobre determinados acontecimentos/pessoas.
Quais são as conseqüências dos escândalos políticos? Claro que pessoas são envolvidas, reputações são questionadas, carreiras políticas podem ser destruídas. Porém o que mais nos chama a atenção é que, em determinadas situações, ocorre a quebra da confiança no papel de certas instituições. A mídia em alguns escândalos exagera em suas observações e avaliações, chegando a generalizar certas atitudes, como se toda a categoria dos políticos agisse de uma maneira comum. O político, em alguns momentos, é avaliado negativamente, e torna-se sinônimo de corrupção.
Neste sentido é que devem ser compreendidas as comissões de investigação, mas principalmente as Comissões Parlamentares de Inquérito, formadas para acompanhar os escândalos e, restaurar, à medida do desgaste político, a confiança nas instituições.
A democracia só se aprimora quando a liberdade de expressão é preservada e quando tais transgressões ou são punidas judicialmente ou são compreendidas pelos cidadãos.
Infelizmente, o escândalo político é um tema que nunca sai de pauta!
(*) Professora de Política da PUC/SP e pesquisadora do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política)
Lula quebra ritual da Presidência
Publicado pela Folha Online em 24/11/2003, às 03h14.
Quebrando uma tradição do Palácio da Alvorada, a bandeira presidencial continuou hasteada no sábado, apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter passado todo o dia fora, em reunião com ministros do PT na Granja do Torto.
Normalmente, quando o presidente está na residência oficial, o Pavilhão Presidencial --a bandeira da Presidência- fica hasteado. A bandeira é retirada do mastro sempre que o presidente da República deixa o Alvorada.
É tradição o hasteamento da bandeira da Presidência em todos os locais públicos onde se encontra o presidente.
P.S. Essa matéria vale mais pela escolha do título que pelo conteúdo.
Quebrando uma tradição do Palácio da Alvorada, a bandeira presidencial continuou hasteada no sábado, apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter passado todo o dia fora, em reunião com ministros do PT na Granja do Torto.
Normalmente, quando o presidente está na residência oficial, o Pavilhão Presidencial --a bandeira da Presidência- fica hasteado. A bandeira é retirada do mastro sempre que o presidente da República deixa o Alvorada.
É tradição o hasteamento da bandeira da Presidência em todos os locais públicos onde se encontra o presidente.
P.S. Essa matéria vale mais pela escolha do título que pelo conteúdo.

